05/01/2011

Outono

O nosso colega Rogério não pára de nos surpreender com a sua observação do mundo à nossa volta.
No texto de hoje lança um olhar pela natureza e pinta-nos um quadro simultaneamente delicado e objetivo da mudança das estações.

Outono

Neste outono, folhas caídas atapetam o chão, uma a uma vão caindo, amarelas ou vermelhas, o seu verde natural perdeu-se, e, assim, as árvores se despem.

Esperamos. O inverno chegará em breve. O frio, a chuva interferem nesta época. Toda a humanidade se agasalha para suportar melhor a invernia que é tolerada sem favor porque sabemos a Natureza prenhe para nos dar as primeiras flores, tanto nalgumas árvores, como nos prados e jardins (que lindos!), todo um desabrochar de cores e também de melhor disposição para receber o que a Natureza nos dá, porque a chuva revigorou as sementes na terra, algumas trazidas por aves.

E assim se transforma o manto de folhas secas em prado florido, pronto a alimentar os animais que nele pastam e convidam as aves a pousarem em arbustos onde algumas constroem o seu ninho e ali põem ovos que dão origem a outras que serão alimentadas pelos seus progenitores.

Que linda a Natureza que também é minha mãe!

Rogério (Dez. 2010)

Novas profissões II


A propósito de um pequeno relato trazido na aula anterior pelo senhor Rogério relativamente ao estado de desalento de uma empregada de caixa de supermercado

Referia o mesmo que a dita empregada, ao não ser atingida por um objecto pesado deixado cair da mesa de trabalho, desabafou ao cliente que melhor fora que o mesmo a atingisse e lhe provocasse dano físico, pois que, apesar da possível dor, seria essa a forma de não ter de ir trabalhar nos dias seguintes, isto partindo do princípio que lhe seria concedido um período de baixa médica.

Questiono: Estaremos, neste caso, perante uma atitude masoquista? Estaremos face ao desabafo de uma pessoa que e preguiçosa, recorrendo a todos os estratagemas para não trabalhar, ou estaremos perante uma pessoa à qual a dignidade física e humana foi brutalizada como resultado de um relacionamento laboral que cada vez mais impera nas empresas que, em vista do presumível efeito da crise instalada (ou instigada), fazem dos seus empregados o mal maior com que têm de lidar.

Estas pessoas vivem o drama quotidiano de terem apenas a certeza de ter de estar presentes n respectivo posto de trabalho à hora marcada para aquele dia. Depois é fazer tudo o que lhes mandam onde imperam os maus humores dos chefes que variam na proporção directa da mútua antipatia, da idade da pessoa, do tempo de serviço na casa, etc. Pelo que acontece de tudo, desde obrigarem as pessoas a trabalharem horas a fio sem direito a intervalo, fazê-las saltar de secção em secção a todas as horas, convidá-las amavelmente a trabalhar em part-time bem remunerado, na mira de as fazer existir do contrato efectivo, não pagam horas extra, não pagam dias de descanso, combinando dias de compensação que não são concedidos por “dificuldades operacionais”, etc.

Neste ambiente não é, pois de admirar que o ficar em casa de baixa, mesmo com dores e a auferir apenas uma parte do vencimento, seja uma atitude tentada para alívio temporário das pressões a que as pessoas são sujeitas, devido a ser prática corrente o desregramento das condições de trabalho e o desrespeito pela legislação existente.

Carlos (Dez. 2010)

Novas profissões

Num supermercado um pobre velho fazia as suas magras compras, fruta e iogurtes.
Quando se aproximou da caixa em serviço, foi-lhe dada prioridade por um estrangeiro que já tinha as suas compras (avultadas) na passadeira rolante.

Ao chegar perto ouvi o diálogo entre a senhora que estava de serviço na caixa e uma cliente por motivo de uma lata - suponho que de fruta em compota - ter caído ao chão muito próximo dos pés da funcionária. Dizia a cliente: "Olhe que me pareceu ter caído em cima dos seus pés.", ao que esta respondeu: - Era a maneira de pedir baixa e não vir trabalhar.


O velho interveio dizendo: - É uma sofredora! Não se importava que a lata lhe caísse em cima?


Resposta: - Isso diz o senhor porque não sabe o que é este trabalho.


Rogério (Nov. 2010)

23/11/2010

Crónica de outros quotidianos


Anos 30, século XX

Mais uma história dum Lagoense de um tempo em que estas praias ainda eram quase exclusivamente dos Algarvios.

O homem que era dono duma praia

Chamava-se Francisco Carvalho Azevedo e Silva e residia em Lagoa, tendo por companheira uma governanta. Estava separado de sua esposa.

Tinha uma propriedade murada no sítio de Alfanzina que confinava com a falésia, onde existe uma enseada com areia.

Resolveu abrir um túnel escavando a rocha e, por meio duma escadaria na mesma talhada atingiu a pequena praia.

Já na praia, aplanou uma rocha situada no areal e assim criou uma pista de dança.

Também tinha um baloiço e um burro de cambalhotas.

Nesta praia dançava-se ao som de grafonola.

Escavou a falésia fronteira à escadaria e aí criou uma sala onde tinha uma mesa com gavetas com segredo para abrir.

Prolongando o rasgo na falésia, criou um pesqueiro (pesca à linha).

No patamar ao fundo, do lado direito, tinha uma pequena lancha suportada por barrotes em parte metidos na rocha.

Por baixo tinha uma manjedoura encimada com o seguinte dístico: “Comerá disto quem disser que desta praia não gosta.”

Quem quisesse ir à praia tinha que ir pedir a chave ao quinteiro e voltar a entregar-lha de volta.

Assim nasceu a Praia do Carvalho.

Rogério, 17-11-2010

Se a ordem é inventar...

Como de costume a Natércia respondeu ao desafio das "Escrevências desiventosas" recriando a nossa língua em poesia.
Eis o poema:

I

Se a ordem é inventosa

Vamos lá a inventar

Uma palavra engenhosa

Que não custe decifrar

II

Mia Couto, que escritor

Ele devia ser mágico

Na poesia põe “Amor”

Na dor ele põe o “Trágico”!

III

Fala da imagináutica

Que palavra foi buscar

É um dom da estreláutica

Também estou a inventar!

IV

Que estranha constelação

Onde descobre a palavra

Inventa com o coração

Nem o dicionário se salva!

V

Mia Couto, “cronicando”

Nesta eu achei beleza

Mesmo que seja inventando

Eu gostei da inventeza

VI

Fui ao saco da gramática

Que descoberta que eu fiz

Em vez de “às duas por três”

Diz ele, duas por triz!

VII

O Mia foi misturando

Dizendo talvez sem nexo

Até dizem que falando

A palavra não tem sexo!

VIII

Se as palavras inventar

Sobem-me as cores ao rosto

Se não as deixam passar

E ficam presas no posto?

IX

Não sei que mais inventar

Entre escrevente e falantes

Se o Mia não se zangar

Fica tudo como dantes!

X

Gostei da do “detergente”

De lavar as impurezas

Do rio que corre descendo

Levando tantas tristezas!

XI

Escrevências Desinventosas

Agora para terminar

Sem palavras inventosas

Vou Mia Couto saudar!