Recentemente,
voltei a ler o romance "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley,
filósofo e escritor inglês. Neste romance, escrito em 1931, o autor descreve
uma distopia futurística em que o mundo tem um governo central que domina todos
os aspetos da vida das pessoas, desde a genética e a inteligência até ao
trabalho e ao ócio.
Aqui o ócio é
um instrumento utilizado pelo estado para manter a estabilidade social e o
controle. Em vez de ser um tempo para descanso, reflexão ou desenvolvimento
pessoal, o ócio está desenhado para manter os cidadãos distraídos, entretidos e
obedientes. A meta é promover o consumo e impedir o pensamento individual e
independente.
As pessoas
dispõem de muitas oportunidades recreativas, como o golfe de obstáculos, que
requer viajar em helicóptero para chegar aos campos, e o cinema sensível em que
não só se ouve, mas também se sente os cheiros e as coisas que os atores
sentem, até aos beijos. Todas as atividades são deliberadamente complexas e
dispendiosas, garantindo que as pessoas continuem a comprar bens e serviços.
O governo faz
tudo para suprimir os passatempos solitários e as atividades intelectuais,
porque podem incentivar o pensamento critico e a autoconsciência.
O único
passatempo solitário tolerado é a "soma", uma droga fornecida gratuitamente
pelo governo, que causa um estado de inconsciência eufórico. Quando alguém
experimenta emoções negativas, é incentivado a tomar uma dose e escapar para um
mundo de sonhos, reduzindo assim a insatisfação pessoal e a possibilidade
coletiva de agitação social. O ócio, então, funciona tanto com um meio de
controle emocional como de entretenimento.
Huxley utiliza
esta representação do ócio para criticar a cultura consumista moderna e os
perigos de sacrificar a individualidade em nome do conforto. Os cidadãos do
Mundo Novo parecem felizes, mas a sua felicidade é superficial, porque é baseada
na distração constante e não em experiências significativas. O autor quer destacar
a importância da liberdade, da profundidade emocional e da escolha pessoal.
Será que nós, cidadãos do mundo atual, com a televisão cada vez mais
banalizada, com os anúncios personalizados em toda a parte oferecendo cada vez
mais engenhos desnecessários, com desprezo crescente da palavra escrita, vamos
também terminar num mundo como o descrito por Huxley? Espero que não!
Violet Long
02-06-2026