Hoje, quero compartilhar com
vocês um pouquinho sobre os carnavais que
experimentei em três países onde
vivi por vários anos, Colômbia, Itália e Espanha.
Na cidade de Pasto, no sul de
Colômbia, o Carnaval celebra-se no começo do
ano, como muitos carnavais desse
país. Imagine-se a minha surpresa quando
saio do meu quarto para o pátio
no dia 28 de dezembro e levo com um balde de água inteiro na cabeça! Os meninos
da casa onde me hospedava, que sempre eram muito respeitosos, riram muito. E
tive de entrar no jogo, claro! É esse o costume nesse dia, o começo de
Carnaval, atirar água sobre os outros e fazer piadas práticas, tal como nós
fazemos no 1° de abril.
Logo em janeiro seguem outros
dias de Carnaval, todos diferentes, culminando nos dias 5 e 6 com o Dia de
Negros e o Dia de Blancos. No Dia dos Pretos, todos pintam a cara de preto e
dançam e festejam nas ruas e praças ao som dos instrumentos tradicionais da
costa pacifica tocando música afro-colombiana. O Dia dos Brancos é o dia mais
importante do Carnaval, com um desfile de carroças, bandas de música, disfarces
e grupos coreografados. E não faltam as batalhas de farinha, talco e espuma
entre os participantes, que se protegem com óculos de sol, um chapéu excêntrico
e um poncho branco. Todos terminam besuntados de branco da cabeça aos pés. É de
notar que este Carnaval é uma verdadeira celebração do multiculturalismo que
tipifica a Colômbia.
Outro Carnaval que experimente, a
alguma distância, por razões que tornarei óbvias mais adiante, foi em Ivrea, no
norte de Itália, o Carnaval mais antigo do país. Como os carnavais de Portugal,
celebra-se no domingo, segunda-feira e terça-feira antes da Quaresma. A lenda
diz que comemora o rapto duma rapariga na noite do seu casamento pelo tirano da
cidade, que queria exigir o direito da primeira noite feudal. O plano nefasto
dele falhou quando a rapariga o decapitou e o povo invadiu o castelo. Hoje em
dia, uma rapariga é eleita cada ano como Violetta, a filha de moleiro da lenda,
uma heroína que simboliza a liberdade e que reina sobre os festejos. A parte
culminante do Carnaval é a Batalha das Laranjas, em que nove equipas de jovens
chamados arancieri (laranjeiros), protegidos com capacetes com grelhas e
montados em carros puxados por cavalos igualmente protegidos, atiram milhares
de laranjas às outras equipas e, obviamente, aos espectadores. As laranjas
simbolizam as pedras que o povo atirou contra o castelo do tirano. Nesse dia
não faltam pessoas que sofrem hematomas por causa das laranjas. Como já disse,
por isso eu nunca participei.
Uma nota interessante é que ser
aranciero é dispendioso. Eles têm de pagar pelas laranjas da sua equipa, as
quais são trazidas do Sul porque não se cultivam no clima frio do norte de
Itália, e o custo por pessoa chega aos mil euros ou mais.
Mas em Ivrea os jovens orgulham-se
de pertencer à sua equipa e geralmente participam durante vários anos seguidos.
O terceiro Carnaval que quero
mencionar é o de Cádis, no sul de Espanha,
porque é muito diferente dos
outros dois. Em Cádis, o que atiram são palavras e não objetos. O evento mais
importante deste Carnaval, que se celebra durante dez dias antes da Quaresma, é
o concurso de comparsas. Estas são grupos de homens, disfarçados
identicamente segundo o tema, que compõem, tocam e cantam cancões satíricas. Os
temas podem ser políticos ou morais, e sempre são mordazes e bisbilhoteiros. O
concurso a sério tem lugar cada noite no Teatro Municipal - e é transmitida
pela televisão regional- mas os grupos também andam pela rua e sobem para palcos
improvisados para cantar as suas canções.
Há outros grupos também, tanto
pequenos como grandes, cujas canções são
mais humorísticas. Eles também
desfilam pela rua disfarçados e cantam nos
palcos, mas não entram no
concurso. Toda a vizinhança e os muitos turistas
se disfarçam, saem à rua,
cantam, dançam, bebem e festejam dia e noite.
O que me parece mais
interessante destes três carnavais é que, apesar das
diferenças, todos têm em comum
uma espécie de batalha, seja de farinha, de
laranjas ou de palavras. Não
tenho nenhuma explicação para este fenómeno. Talvez seja o confronto entre a
"gordura" da vida normal e a "magreza" da
Quaresma. Ou uma expressão da
alegria de ver a primavera chegar. Não acho
que importe: o que importa é que
as pessoas têm uma maneira de expressar o
seu júbilo -- e em público.
Violet Long, Fevereiro, 2026