Não seria cedo nem tarde. Os vidros foscos ou sujos não me
permitiam esclarecer o concreto.
Vou ao exterior e reparo que me separam da outra margem do
rio uns mil e quinhentos metros em reta e a nado.
Regresso à temperatura amena da sala do café.
Imaginar-me nas águas frias do rio faz-me estremecer de
arrepios desde a cabeça aos pés.
O senhor da mesa ao lado apercebe-se e pergunta-me se estou
doente.
- Não, sinto-me sereia, estou feliz. Repare, cavalheiro…
Todos os barcos estão ancorados, não vislumbro redes de pesca nem arpões.
Sinto-me segura… Poderei bailar nos acordes do vento coberta pelo nevoeiro…
Ele faz-me sinal para a outra mesa onde estavam sentadas
três jovens e diz-me_
- Estão a ouvir a sua conversa, riem de si, acham-na louca.
Cumprimenta-me. Despede-se. Sai.
…………………………………………….
Alguém me toca nos ombros. Levanto a cabeça.
Sorridente, a senhora que me serviu, já sem a farda de
trabalho e com a carteira ao ombro, diz-me:
- Peço desculpa. Deixei-a dormir, mas já acabei o meu
trabalho. Falta fechar a porta. Vamos?
Envergonhada pergunto: Quanto lhe devo?
- O senhor com quem esteve a conversar pagou a sua despesa.
Abraçámo-nos. Eu era cliente habitual.
Seguiu o seu caminho.
Olho em redor. Já não havia rio nem sereia. A noite de
inverno mal iluminada escondeu-o…
Meus animais esperavam-me em casa. Pus o motor a trabalhar.
Acelerei.
Júlia, 02-12-2025