15/11/2010

Inventores de palavras


A propósito do desafio de participar na recriação da língua imaginando novas palavras, fui repesquei dos meus velhos cadernos dos tempos de estudante estes dois poemas de Alexandre O'Neill que, já então, ignorava a polícia da língua (e dos costumes!) e nos brindava com estas lufadas de ar fresco:


AMIGOS PENSADOS : VATE 65

Crocodiletante
lacricrimejante
ou vociferante
ao cri-cri da crítica.

Abaixo a política!

Antes a poesia,

que é coisa mais séria.

Seria?


BILHETE-POSTAL A ALEXANDRE PINHEIRO TORRES

Absinto-me cansado
na outonalma.
De absinto, no outono,
encharco a alma...

Muito deve a literatura
ao absinto.
Em qualidade, muito mais
que ao tinto...

Ó Alexandre, manda-me absinto
na volta do correio,
que eu já sinto, com tanto tinto,
estancar-se-me o veio...

14/11/2010

Desalisando a linguagem

Odete Semedo, escritora guineense, diz que “A língua nasceu solta e desenvolta. Nasceu virada para fora de si.(…).
A língua, na sua fantasia, tem vestidos: vestidos requintados com enfeites de emoção, roupa de mendigo e com remendos (…), vestido com bordados e afrontas que para muitos são heranças que os séculos lhe foram juntando num pé-de-meia. E com todos esses vestidos chega a bifurcar-se em língua do coração, língua do sentir, da alma e língua de contacto com o resto do mundo. (…) Têm elas o seu estilo de cooperação: a língua de viagens, a de contacto, acaba pedindo emprestadas as roupas de emoção da língua do sentimento (…). Esta, por sua vez vai deixando que a língua do sentimento faça uso de suas letras”.

Por isso, nas nossas sessões de leitura, escrita e (muita) conversa a propósito do que lemos, nos é tão fácil deixar que, como diz Mia Couto, a língua se torne carícia para fruir “o simples gosto da palavra” e da linguagem que o escritor persiste em “desalisar”, “colocando nela as quantas dimensões da Vida.

Desalisando a linguagem lemos com um sorriso gostoso a crónica “Escrevências desinventosas” de Mia Couto

E, pois que não somos “polícias da língua” e a cada dia nos deixamos encher do encantamento e a poder recriar, o desafio surgiu naturalmente: trazer para a sessão seguinte algumas novas palavras tentando integrá-las em pequenos textos ou, pelo menos, pequenas frases.

Fonte das citações: Instituto Internacional da Língua Portuguesa

04/11/2010

E a língua de Camões?


Da observação do quotidiano nascem, também em verso, comentários bem humorados .


Ouvi hoje uma palestra

Que me deixou abismada

Eram jovens à conversa

Eu não entendi nada


Numa linguagem sem nexo

“Quero que tudo se lixe”

Depois falaram de sexo

E que era “bué da fixe”!


Continuei a ouvir

Sem saber o que pensar

Um disse: “eu quero é curtir”

E outro “vou-me bazar”!


Que estranho linguarejar

Eu escutava dos mancebos

Não estariam a estuda?

Não saberiam os verbos?


Terá uma certa dureza

Este meu analisar?

E a língua portuguesa

Quem a poderá salvar?


Já fomos grandes na história

Orgulhosos dos brasões

Onde está a nossa glória

E a língua de Camões?


Natércia, 27/10/2010

03/11/2010

Crónica de outros quotidianos


A propósito da crónica e do que ela pode ter como tema(s), a Hermínia partilhou conosco um trecho do livro “Pequenas Memórias” de José Saramago. Nele o autor conta como, em criança, passava longas horas na oficina do sapateiro Francisco Carreira na aldeia de Azinhaga. Na oficina do sapateiro convergiam, em momentos diferentes, os diferentes estratos sociais que ali partilhavam a sua leitura de acontecimentos e ideias, assim compondo a crónica do quotidiano.
Na verdade, na memória das pequenas e grandes localidades, o barbeiro e o sapateiro eram ponto de encontro e de troca de novas, ditos, contos e mexericos dos pequenos e grandes acontecimentos do dia-a-dia local, nacional e internacional.
Viajemos, então, aos anos trinta e sentemo-nos num cantinho duma oficina de sapateiro em Lagoa, Algarve. Observemos quem chega. Um cliente ou outro com velhos pares de sapatos para pôr meias solas, gáspeas, capas nos tacões…
E aqueles senhores? Não parecem vir trazer nem buscar calçado! Pelo ar e pelo trajo parecem pessoas bem colocadas na hierarquia local.
De facto são quatro amigos, republicanos convictos que aqui vêm trocar dois dedos de conversa, discutir políticas, preocupações e desejos, falar um pouco disto e daquilo e, porque não, deste e daquele. São eles José de Carvalho e seu irmão Francisco, o farmacêutico e o senhor Rocha, todos eles, pessoas consideradas na vila.
Anos 30, século XX

José de Carvalho, republicano, crítico e solteiro militante e lagoense, homem discreto, estatura mediana, barba grisalha à Guerra Junqueiro, com uns laivos de alourado no lábio superior pelo facto de ser fumador, vivia com uma irmã, de nome Maria do Carmo.
Quando lhe perguntavam porque não havia casado, respondia: “Tenho feito muitos disparates, mas esse não!”
Tinha estado em Moçambique, onde exerceu altos cargos públicos, mas resolveu pedir a demissão e regressar à Metrópole, dizia, para todos os dias ser procurado por pessoas necessitadas de emprego, e ele não podia ser útil, o que o desgostava.
Em Lagoa foi administrador do concelho, também se demitiu.
Apareciam pessoas apresentando queixas de agressões. Acareava queixoso e acusado e verificava que se tratava de zaragata na taberna, dava-lhes uma lição dizendo-lhes: “Ao sábado, ao receberem a féria, vão direitinho às vossas casas; não passem pela taberna! As vossas mulheres necessitam desse dinheiro para alimentar a família. Deixem a taberna!”
Dirigindo-se directamente ao agressor, dizia-lhe: “Se voltas cá por casos destes, meto-te na prisão! Rasgaste a roupa ao teu amigo, e agora sabes o que vou fazer? Vou pagar do meu bolso o valor da mesma, para não te obrigar a fazê-lo, como seria normal, porque não quero castigar a tua mulher e filhos por disparates de que só tu és responsável!” Perguntava ao ofendido o valor da roupa estragada, pagava e terminava dizendo: “Ao sábado não passem pela taberna!” Dizia: “Sabe quanto isto me custou? Muito dinheiro!”
Era dono duma propriedade agrícola que, devido à sua retirada para África, ficou sob orientação de seu irmão Francisco.
Certo dia, o caseiro procurou-o, lamentando que o Senhor Francisquinho o tinha despedido e não tinha para onde ir com a família. Disse ele: “Sabes, tu fazes o trabalho de tarde, fazes as colheitas de tarde, e tudo está atrasado em relação ao que os vizinhos fazem. Faz tudo pela manhã! Não vás tantas vezes à taberna! Faz como te digo e eu vou pedir ao Francisquinho para não te despedir!”
Quando o homem se retirou, disse: “É um pobre. Embriaga-se, descura os trabalhos, mas tem mulher e filhos; não o despeço.” Dizia ele: “Sabe o prejuízo numa vinha no fim da época? São arrobas de uvas consumidas por uma família, o casal, mais quatro ou cinco filhos.”
A pessoa que ouvia respondeu assim: - E se eles não comerem as suas uvas, e forem comer as dos vizinhos?
- Com os diabos – respondeu – punha-os na rua!
- Guardam a propriedade, têm – diz ele - direito a comer tudo do que ela produzir. Se não comem do melhor, são parvos!”
Certo dia, dirigindo-se a um amigo, espavorido, diz: “Sabe, encontrei ali o João Rodrigues, e eu julgava-o uma pessoa inteligente. O homem é um bruto. Diz esperar a vinda de D. Sebastião, montando um cavalo branco numa manhã de nevoeiro.”
Ao verificar que uma jovem aparentava estar tuberculosa, mandou uma pessoa a sua casa para lhe entregar alguns produtos alimentares (não referindo o seu nome para não ser mal compreendido).
Numa sessão de propaganda da 1ª República, disse assim: “Sou republicano desde o berço e serei até ao sepulcro. Depois de descer aos infernos, farei dos diabos todos republicanos.
Dizia: “Há muita miséria! Calculem que nos pesqueiros deixo muitas beatas e, quando volto, já têm levado todas!”
Era muito recolhido. Dizia sair de casa para visitar três amigos. “Mas se souber que algum deles se porta mal, deixo de sair.” Quando, numa dessas visitas, entrou o cunhado do dono da casa e o cumprimentou, ele deu-lhe dois dedos e depois comentou: “Aquele tipo faliu e ficou com um armazém recheado. Um ladrão! Da próxima dou-lhe o pé!”
Pedia para o avisarem da saída de alguma procissão para ele se meter em casa, não fosse encontrar isso.
No testamento deixou dito que queria um funeral civil e modesto. Se ocorresse em Lisboa, iria na carreta do Registo Civil, caso em Lagoa, na da Misericórdia, puxada por animais de duas pernas.
Um seu irmão, de apelido Azevedo Lopo, ao ver a urna sair de casa coberta pela bandeira nacional, recusou-se a acompanhar o féretro. Era monárquico, tinha feito parte como oficial das tropas de Paiva Couceiro, aquando da incursão pelo Norte a fim de reimplantar a monarquia.
Rogério, 07/10/2010

Eu quis escrever uma crónica

Também com poesia se faz a crónica do quotidiano.


Eu quis escrever uma crónica

Andei prà frente e pra trás

E posso parecer irónica

Mas juro que não fui capaz


Então como sou teimosa

Vou pra todos vós falar

Esta poesia ou em prosa

Esta crónica vai rimar


Falo da televisão

Que nos faz adormecer

Dá-nos cabo da visão

E não nos sabe entreter


Novelas e mais novelas

De conteúdo teatral

As histórias podem ser belas

Mas não são vida real


Mas temos o Parlamento

E os partidos alinhados

Onde aprendemos imenso

Com os nossos deputados


Ensinam a maldizer

Coisa que o povo não usa

E ao ouvi-los dá prazer

Lavar tanta roupa suja


Temos também Internet

E a preocupação das mães

A criançada promete

Todos têm Magalhães


Só alta tecnologia

Onde o futuro é previsto

É toda a demagogia

Do nosso primeiro ministro


A saúde está doente

O trabalho moribundo

Quem é que defende a gente

das agruras deste mundo


Só futebol na cidade

É que nos dá sangue novo

Lá diz o velho ditado

Que é o ópio do povo


Tenho a cónica chumbada

Pois só falei do pior

Criticar não custa nada

Custa é fazer melhor

Natércia, 13/10/2010