18/10/2010

Uma simples redacção

Na passada 4ª feira, assisti à minha primeira aula de Língua Portuguesa. A Professora, após a apresentação de todos os alunos e uma breve abordagem sobre a matéria para o presente ano lectivo, sugeriu que a turma fizesse uma redacção!

Ao ouvir esta palavra, de doces recordações, ouço sininhos tocando, e o meu pensamento voa para a escola tão longínqua dos meus tempos de menina, quando o meu Professor Baptista lia em voz alta a minha redacção.

“Isto é para vocês (dizia ele para os outros meninos e meninas) ouvirem e saberem como se faz uma redacção”.

O meu coração pulava, mas a minha timidez mandava que eu ficasse caladinha e me lembrasse que o mérito afinal não era meu … é que naquele tempo as palavras andavam sempre ali, à mão de semear e as ideias eram tantas e tão fáceis de agarrar! Bastava estalar um dedo e elas vinham aos magotes e alinhavam-se, bem quietinhas, nas páginas do meu caderno, sem nunca errarem a linha, nem tão pouco o seu lugar.

Vejo agora como hoje as coisas são bem diferentes: já me fogem quando as chamo, levam o tempo a esconder-se, as fugidias palavras não se deixam agarrar, nem se aquietam no papel. E eu desisto, pois sem elas não consigo encontrar nem o tema nem a forma para uma simples crónica escrever.

Corina, 2010/10/12


As nossas crónicas


O desafio lançado na primeira aula deu frutos, e as primeiras (tentativas de) crónicas surgiram.
A segunda aula foi um belo espaço de partilha com a leitura dum texto de José Saramago e de três produções de três colegas.
E quando há participação a discussão surge e flui. Crescem os comentários, as questões e também os aplausos:
"Muito bonito!"
"Crónica ou conto?"
"Que tipos de crónica?"
"E que tal uma crónica em verso?"

Eis, pois, a primeira crónica (Ou será um conto?)

A mãe do seu menino

Sempre aquela mãe, na sua roda de amigas, enaltecia as qualidades físicas e morais do seu menino, não esquecendo as intelectuais.

Nasceu com 4 Kgs, era um bebé lindo, deu-lhe umas boas noites. Ainda lhe faltavam alguns meses para os 2 anos, depois de gatinhar, já andava, mandava beijinhos e tinha um lindo sorriso, além de balbuciar algumas palavras.

O seu menino aos quatro anos já conhecia as letras e aos cinco anos juntava-as e construía palavras, um encanto de criança!

Na escola primária (hoje básica) era o melhor aluno da turma, sempre atento e respeitador para com colegas e professores.

Como bom estudante fez todo o percurso do ensino obrigatório e entrou na universidade. Já na universidade, perdeu-se de amores por uma colega, uma esbelta rapariga.

O namoro agora fazia parte da sua vida a par das aulas de direito que frequentava com a sua mais que tudo, eram colegas de curso.

Quando a mãe teve por si conhecimento de que se iam casar, estremeceu. Foi para aquela mãe, embora sabendo do namoro, uma novidade. Aquele menino lindo que tinha sido o maior bem que o seu falecido marido lhe tinha deixado, ia casar, constituir um lar. Que bonito!

Mas, num solavanco, a mãe do menino, ao estremecer, pensou, e em voz alta, interrompida pela emoção, disse: - Será que ela vai tratar o meu querido filho como merece? Como o tratei sempre? E com o dedo à frente do nariz balbuciou: - Está calada!

Marcado o casamento, muita azáfama, pouco tempo para estar com o filho.

No dia do casamento ela, já na igreja, fitava o filho, e lágrimas corriam-lhe pela face enrugada.

Depois da cerimónia e à saída da igreja, os noivos caminhavam ao som da marcha nupcial. A mãe, quase de joelhos correu por entre a multidão e beijou a mão do seu ente querido. “ Que sejas feliz, meu amor!” assim disse ela.

Já em casa, depois da boda, depois de se ter libertado do vestido apertado e dos sapatos que lhe magoavam os pés, a pobre mãe em silêncio repetia o que havia dito à porta da igreja: “Que sejas feliz, meu amor!”

Numa coisa ela não deixava de pensar: Será que aquela jovem que se casou com o seu menino seria capaz de o tratar como ela o fez?

Visitava com frequência a casa dos noivos, levava flores e ia dizendo das preferências do filho, de como gostava de comer e vestir, enfim...

E uma vez que visitou o casal dirigiu-se à nora e, entregando-lhe um ramo de flores que mais lhe agradou para oferecer, a nora, tomando-as, atirou o ramo das mesmas, que caíram em cima duma mesa, dizendo “Flores!...”

A sogra, ao ouvir a nora, respondeu: “São flores! meta-as numa jarra e não se esqueça de as regar para não murcharem!...”

Rogério (13/10/2010)

13/10/2010

Planos para este ano

Cada vez que se inicia um ano tendemos a formular desejos, promessas, projectos, planos.


Alguns de nós, mais rigorosos, rígidos, precisos ou disciplinados, levarão à risca o percurso que delinearam e tenderão a cumpri-lo sem sair do caminho traçado.


Outros, indisciplinados como eu, seguirão por caminhos já traçados, mas, cansados de rotinas e previsibilidade, ensaiarão fugas, breves jogos de escondidas, paragens aqui e ali por puro deleite ou dois dedos de surpreendente conversa, vaguearão gostosamente por atalhos desconhecidos em busca de novos destinos.


Os passeios projectados para este ano passarão por uma breve abordagem ao novo acordo ortográfico e deter-se-ão um pouco mais na crónica.


Porquê esta escolha?


O acordo ortográfico


O acordo entrou em vigor a 13 de Maio de 2009, data em que começa a ser contado em Portugal o período de transição de 6 anos estipulado por lei, sendo, pois, 2015 o prazo limite para a adopção oficial da nova ortografia.

Para muitos as alterações na ortografia portuguesa são fonte de desacordo, dúvida e conjecturas diversas.

Não é fácil começar de repente a alterar hábitos de escrita adquiridos há muito, sobretudo quando não estamos seguros das novas regras.

Gostando de ler e escrever, preocupamo-nos com a correcção e actualização, mas temos consciência de que alguns "c", "p", uma ou outra maiúscula e um ou outro acento irão esgueirar-se subrepticiamente pelas frinchas da nossa distracção.
Este texto é viva prova disso.
Prometemos estar mais vigilantes.

A crónica
  • Porque, pelas suas características, a crónica nos permite abordar uma variedade de temas mais actuais ou mais reflexivos ou críticos;
  • Também nos oferece uma escolha desde os textos mais factuais aos mais poéticos
  • A crónica é em geral tão breve que poderemos tratá-los na nossa curta hora semanal.
E finalmente...
  • Há um mundo de assuntos que nos despertam a atenção e o desejo de pôr em escrita o que observamos e sentimos.

2010/2011

E aqui estamos de novo depois duma ausência de muitos meses.
- Não fizeram nada entretanto? - perguntarão.
- Claro que fizemos: poetámos (desculpe-se-nos o neologismo), lemos, escrevemos um pouco, conversámos bastante, partilhando ideias e memórias, celebrámos efemérides como o Dia da Mulher, Dia do Pai, 25 de Abril, 1º de Maio, mas também o amor, a primavera, os santos populares, tudo temperado com poesia e música.
A Oração da Paz, também denominada de Oração de São Francisco de Assis, e erradamente atribuída ao santo, diz que "é no dar que se recebe". Os teóricos da aprendizagem dos nossos dias chamam ao que fizemos aprendizagem social, mas o que sabemos é que todos ficámos mais ricos com o muito que partilhámos.

16/03/2010

Singularidades duma rapariga loira


Nem só cartas de amor as Singularidades de uma Rapariga Loira inspiraram!

Singularidades duma Rapariga Loira

Era bonita a Luiza
Encantava quem passava
Tinha cabelos sedosos
E pequenas mãos de fada.
Que fazia então Luiza
Que o seu noivo estranhava?
Entre os dotes de beleza
Que toda a gente admirava,
Tinha um outro secreto
Em que ninguém reparava.
Gostava do que era belo
Leques raros, mantilhas caras,
Jóias que ela admirava
No seu lugar não ficavam
Por tanto admirar o belo
Sem o seu noivo ficava.
Que será da bela Luiza
Em que todos reparavam?
M. H.

O que fazemos por aqui

Dizia eu então que alguns dos participantes no espaço "A Nossa Língua" nos presenteiam com os seus trabalhos.
A carta de Macário a Luísa em "Singularidades de uma rapariga Loira", que não se lê no conto, mas se adivinha, inspirou esta de H.

UMA CARTA DE AMOR

Todas as cartas de amor são ridículas, diz o Poeta Fernando Pessoa. aqui vai mais uma:
Meu amor, há uma semana que partiste e me deixaste nesta solidão. Sinto tanto a tua falta! Tal como esta casa a minha vida ficou vazia.
Hoje, ao acordar, olhando à minha volta, o sentimento de solidão foi tão intenso que não pude deixar de te escrever, quer envie esta carta ou não.
Todo o meu corpo anseia por ti, pelo calor dos teus lábios percorrendo a minha pele. Necessite de ti sob todos os aspectos.
O mar, sem a tua companhia parece-me sem vida e sem cor porque tu não estás aqui para o partilharmos.
Porque partiste? Porque me deixaste tão só?! Não vês que a minha vida perdeu todo o sentido porque não a posso partilhar contigo?
Volta depressa meu amor. Traz-me de volta a alegria de viver. Faz que o meu coração volte de novo a bater!
Eu aqui estou à tua espera com todo o amor que sempre te dediquei.

O que fazemos por aqui - Desafio 1

Isto de uma pessoa se aposentar é estranho.
Levamos anos a construir o sonho do tempo livre, da disponibilidade total, do prazer de não cumprir um dever, simplesmente porque nenhum dever se colocará insistentemente no nosso caminho para ser cumprido... e de repente aí estão para nos surpreender :
  • As coisas que fomos adiando e que continuam adiadas
  • O tempo livre em que não temos afinal tanto tempo.
  • O prazer de cumprir um dever, sim, o prazer de cumprir um dever que procuramos e nos impomos
  • As pessoas que agora não contactamos tanto porque, coitadas! têm tanto que fazer que, julgamos, não têm disponibilidade para nós.
E aí surge o DESAFIO! Viva!!!! Já começava a desesperar olhando indecisa à minha volta sem saber em que actividade me envolver.
- Precisávamos de alguém para "dar" Português...
-Mas a minha especialidade não é Português! Aliás, ao longo da minha vida, só dei Português um ano - e foi há tanto tempo! Não precisam duma professora de Inglês? Não?! Meio-sorriso decepcionado! -Talvez Alemão?! Gosto tanto de ensinar Alemão! E a minha voz interior levanta-se e canta cheia de esperança.
-Não, Alemão também já tem professor!
Oh! A bruxuleante chama da esperança quase se apaga De repente, reacende-se.
- E não haverá um espaço de animação de TIC? - É preciso alfabetizar informaticamente, todos concordamos! Balde de gelo sobre o breve fogo!
- Já há Informática! Não quer experimentar fazer uma abordagem à nossa língua? Nada de muito formal!
O resto do desafio é esta experiência de aprender conversando e lendo em conjunto com um pequeno grupo.
Começámos com "Singularidades de uma rapariga loira" de Eça.
Inicialmente, a velha pele de professora ainda colada à nova tarefa, esperava pôr os participantes a desenvolver trabalho como na escola. Ingenuidades!!!
É necessário mudar de estratégia, não vês? Quem levou anos a cumprir um dever tem direito ao prazer!
Mudou-se um pouco o rumo: especulámos, adivinhámos, conversámos, tentámos encontrar um fim para a história, observámos e analisámos as personagens e as suas reacções, e finalmente lemos o texto.
E que bem que algumas pessoas lêem! Ficaríamos ali enlevados, não fosse tempo que, inexorável, nos coloca o autocarro à porta.
Há também quem escreva e generosamente nos ofereça uma carta de amor ou um poema.