27/10/2026

 AEROGRAMAS

Na aula desta semana foram mencionados os aerogramas, no contexto da guerra colonial, e comecei a pensar em todos os aerogramas que escrevi e também recebi durante os anos que vivi na Colômbia, num contexto totalmente diferente. Os aerogramas, ou "azuis efémeras", como os chamávamos afetuosamente, eram a única maneira de poder corresponder-me com os meus pais em Inglaterra. E como todas essas cartas se perderam há muitos anos, perguntei-me o que escrevia cada

semana, sem falta, e também o que deixava de fora, ou por falta de espaço ou por não querer preocupá-los. Imagino que uma experiência que ficou resumida em poucas palavras teria sido a minha chegada a Pasto, uma cidade do sul da Colômbia.

Essa chegada foi toda uma aventura. Voei da capital, Bogotá, para Pasto, onde alguém devia estar à minha espera. Mas quando desembarquei não havia ninguém. Decidi que se demoravam, e esperei. Passou uma hora, duas, três, e nada. Por fim, um empregado disse-me que era a hora do almoço e que iam fechar o aeroporto porque não havia mais voos nesse dia, mas que podia ir para a cidade com eles. Sem outra escolha e sem ter a menor ideia para onde me iam levar, subi com a minha bagagem para o camião junto com eles. Lembro que a viagem foi longa mas fascinante. Através duma paisagem tropical de bananeiras, palmeiras e plantas impossivelmente verdes, fomos subindo, subindo as montanhas até chegar à cidade. Deixaram-me numa pensão, que diziam ser o melhor lugar para uma senhorita sozinha, onde fui recebida com braços abertos: era onde devia chegar!

Fui ao meu quarto, desfiz as malas, deitei-me na cama porque estava muito cansada e liguei o meu rádio para ouvir as notícias. Não compreendia quase nada do que dizia o locutor. Quase chorei ao pensar que quatro anos de licenciatura não me tinham preparado para compreender o espanhol colombiano.

Mas as experiências do dia não acabaram ali. Depois de almoçar como outros professores que estavam hospedados na pensão, inesperadamente, o meu nariz começou a sangrar. E mal tinha parado, quando chegou, para minha surpresa, o porteiro da faculdade que mandaram para conduzir-me até lá. Fomos a pé, não era uma grande distância, mas eu quase não podia andar, sentia uma tremenda fadiga e que me faltava o ar. Compreendi finalmente que a causa de tudo o que sentia era o "mal de altitude", por estar Pasto a mais de 2.500 metros acima do nível do mar.

Duvido muito que os meus pais tivessem chegado a ler os detalhes desse dia; já estavam suficientemente preocupados por ter a única filha longe de casa. Gostaria muito de poder ler hoje a versão cuidadosamente lavada e branqueada que ficou escrita no primeiro aerograma que lhes enviei.

Violet Long, 18-10-2026