AEROGRAMAS
Na aula desta
semana foram mencionados os aerogramas, no contexto da guerra colonial, e
comecei a pensar em todos os aerogramas que escrevi e também recebi durante os
anos que vivi na Colômbia, num contexto totalmente diferente. Os aerogramas, ou
"azuis efémeras", como os chamávamos afetuosamente, eram a única
maneira de poder corresponder-me com os meus pais em Inglaterra. E como todas essas
cartas se perderam há muitos anos, perguntei-me o que escrevia cada
semana, sem falta,
e também o que deixava de fora, ou por falta de espaço ou por não querer
preocupá-los. Imagino que uma experiência que ficou resumida em poucas palavras
teria sido a minha chegada a Pasto, uma cidade do sul da Colômbia.
Essa chegada foi
toda uma aventura. Voei da capital, Bogotá, para Pasto, onde alguém devia estar
à minha espera. Mas quando desembarquei não havia ninguém. Decidi que se
demoravam, e esperei. Passou uma hora, duas, três, e nada. Por fim, um empregado
disse-me que era a hora do almoço e que iam fechar o aeroporto porque não havia
mais voos nesse dia, mas que podia ir para a cidade com eles. Sem outra escolha
e sem ter a menor ideia para onde me iam levar, subi com a minha bagagem para o
camião junto com eles. Lembro que a viagem foi longa mas fascinante. Através duma
paisagem tropical de bananeiras, palmeiras e plantas impossivelmente verdes, fomos
subindo, subindo as montanhas até chegar à cidade. Deixaram-me numa pensão, que
diziam ser o melhor lugar para uma senhorita sozinha, onde fui recebida com
braços abertos: era onde devia chegar!
Fui ao meu quarto,
desfiz as malas, deitei-me na cama porque estava muito cansada e liguei o meu
rádio para ouvir as notícias. Não compreendia quase nada do que dizia o
locutor. Quase chorei ao pensar que quatro anos de licenciatura não me tinham preparado
para compreender o espanhol colombiano.
Mas as
experiências do dia não acabaram ali. Depois de almoçar como outros professores
que estavam hospedados na pensão, inesperadamente, o meu nariz começou a
sangrar. E mal tinha parado, quando chegou, para minha surpresa, o porteiro da
faculdade que mandaram para conduzir-me até lá. Fomos a pé, não era uma grande distância,
mas eu quase não podia andar, sentia uma tremenda fadiga e que me faltava o ar.
Compreendi finalmente que a causa de tudo o que sentia era o "mal de altitude",
por estar Pasto a mais de 2.500 metros acima do nível do mar.
Duvido muito que
os meus pais tivessem chegado a ler os detalhes desse dia; já estavam suficientemente
preocupados por ter a única filha longe de casa. Gostaria muito de poder ler
hoje a versão cuidadosamente lavada e branqueada que ficou escrita no primeiro
aerograma que lhes enviei.
Violet Long, 18-10-2026