2 de dez. de 2025

“Dizem que todas as corcundas são más”

 



Uma frase quedou na minha mente depois de ler este conto (que é para mim excessivamente sentimental): a de “dizem que todas as corcundas são más”. Na literatura e na história, sim, todos os corcundas são maus, tais como Quasimodo, Rigoletto, ou o rei Ricardo III de Inglaterra, mas na vida real é outra coisa, e eu sei-o pessoalmente porque a minha avó era corcunda e não era nada má.

Não nasceu assim; a causa foi o raquitismo, devido à extrema pobreza da sua família no final do século XIX. Apesar disso, ela chegou a ser enfermeira na ala psiquiátrica do hospital local, casou-se com um viúvo com três filhas e só faleceu aos oitenta anos depois de ter pneumonia. Nunca teve filhos próprios, mas cuidou das suas três enteadas como se fossem dela.
Devo dizer que a minha avó tinha um carácter um pouco difícil. Era exigente e rígida, e nunca foi pessoa de dar abraços e beijos nem de utilizar palavras de afeto, mas sabíamos que nos amava e que tudo o que queria era o nosso bem.

Vivia sozinha numa casa de só dois quartos, a sala com a cama detrás duma cortina e a cozinha com a banheira numa alcova, mais a sanita num quartinho na entrada posterior. Foi uma das 48 construídas num círculo nos anos 30 pelo município para idosos, mas não era nada adaptada. Ela tinha que subir a uma cadeira para chegar à despensa e nunca pôde utilizar a banheira porque era muito alta! As vizinhas queriam-lhe muito porque ia às compras para elas, acompanhava-as quando estavam doentes ou tristes e sempre parava para conversar um pouco quando passava à porta.

Como a minha mãe trabalhava, eu ia a casa da avó para almoçar quando andava na escola primária. Adorava deitar-me? /encostar-me? Na sua cama e vê-la pôr a mesa enquanto falava comigo. Já não sei de que falávamos, mas sei que conversávamos muito. Ela tinha muito orgulho em mim porque eu podia estudar; ela só fez o ensino primário, mas tinha uma bonita letra e gostava de corresponder-se com os parentes e as amigas.

Que eu saiba, ela nunca fez coisas má. Era boa madrasta, boa avó, boa amiga e boa vizinha. Tudo ao contrário do que pintam na literatura.


Violet Long, 14-11-2025

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