O Alípio estava a meio caminho de casa quando se deu conta de que a sua aliança não estava no dedo.
"Meu Deus, o que vai dizer ela!" pensou, entrando em pânico. "Seguro que vai pensar que estive com outra mulher. Sempre vê o lado mau das coisas. E se eu dissesse que ficou na gaveta do escritório depois de retirá-la para ver uma máquina na fábrica... Não, isso não funcionaria porque amanhã também não a teria. Ou digo que fui assaltado e que já fui fazer a denúncia. Não, tampouco.
Não estou ferido e tenho a carteira com o dinheiro e tudo. Ai, coitado de mim!
O que se vai passar? Simplesmente deve ter caído porque perdi tanto peso com a maldita dieta que ela me impôs. Já perdi trinta quilos. Quantos mais quer que eu perca antes de me deixar provar um bocadito de carne ou de açúcar? E esses almoços que tenho de levar para o escritório! Até um coelho passaria fome. E nem pensar nessas injeções de, como é que se chama, Ozempic? Ah não, ela não aceita. Tem que ser tudo natural, vegetariano, vegano, biológico. Desde quando a comida não é biológica? Não é inorgânica? Bom, Alípio, pensa. O que vais dizer? A verdade ou uma mentira? E qual a verdade, se não sei onde nem quando a perdi. Caiu e ponto. Valha-me Deus! O que vou dizer-lhe? Que castigo vai me dar? Será alguma coisa horrível, isso sei."
E cogitando sem chegar a nenhuma conclusão, o Alípio arrastou os pés até casa.
"Boa noite, querido!" ela disse, abrindo a porta com um enorme sorriso.
"Perdeste alguma coisa?”
"Eu, não, porquê?" disse numa voz trémula. Ela riu.
"Ai, vocês os homens, sois tão insensíveis! Não te lembras que a tua aliança caiu à noite quando lavavas os pratos? Encontrei-a hoje de manhã. Nenhuma mulher esqueceria a sua aliança dessa maneira!"
E beijou-o carinhosamente.
Violet Long – 18-11-2025
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