5 de dez. de 2025

No café


Não seria cedo nem tarde. Os vidros foscos ou sujos não me permitiam esclarecer o concreto.

Vou ao exterior e reparo que me separam da outra margem do rio uns mil e quinhentos metros em reta e a nado.

Regresso à temperatura amena da sala do café.

Imaginar-me nas águas frias do rio faz-me estremecer de arrepios desde a cabeça aos pés.

O senhor da mesa ao lado apercebe-se e pergunta-me se estou doente.

- Não, sinto-me sereia, estou feliz. Repare, cavalheiro… Todos os barcos estão ancorados, não vislumbro redes de pesca nem arpões. Sinto-me segura… Poderei bailar nos acordes do vento coberta pelo nevoeiro…

Ele faz-me sinal para a outra mesa onde estavam sentadas três jovens e diz-me_

- Estão a ouvir a sua conversa, riem de si, acham-na louca.

Cumprimenta-me. Despede-se. Sai.

…………………………………………….

Alguém me toca nos ombros. Levanto a cabeça.

Sorridente, a senhora que me serviu, já sem a farda de trabalho e com a carteira ao ombro, diz-me:

- Peço desculpa. Deixei-a dormir, mas já acabei o meu trabalho. Falta fechar a porta. Vamos?

Envergonhada pergunto: Quanto lhe devo?

- O senhor com quem esteve a conversar pagou a sua despesa.

Abraçámo-nos. Eu era cliente habitual.

Seguiu o seu caminho.

Olho em redor. Já não havia rio nem sereia. A noite de inverno mal iluminada escondeu-o…

Meus animais esperavam-me em casa. Pus o motor a trabalhar. Acelerei.

                    Júlia, 02-12-2025

                                       


2 de dez. de 2025

No Café


Entrei no café e sentei-me na única mesa desocupada. O café estava sempre muito concorrido a essa hora. Pedi um café e comecei a olhar as pessoas. Um grupo de senhoras bisbilhotava com olhares conspiratórios, enquanto um grupo de homens se ria dando palmadas na mesa. Em outras mesas, jogavam dominó ou liam o jornal, e, naturalmente, não faltavam pessoas que não se falavam porque estavam absortas no telemóvel. A exceção: um par de jovens que se olhavam nos olhos, mãos dadas, como um par de pombinhos. Só eu e uma senhora estávamos sozinhas.

Ela estava sentada a uma mesa perto da janela com um café e um copo de água na sua frente. Aparentava ter uns sessenta ou setenta anos e vestia um casaco de pele. Olhava pela janela com uma expressão ansiosa, como alguém que está àespera da chegada duma pessoa que se atrasa demais. Bebi o meu café e comi a minha torrada, e distraí-me um pouco lendo as notícias. Passaram talvez uns vinte minutos. A senhora da janela ainda estava ali, sempre com essa expressão ansiosa. De repente, olhou o relógio, suspirou profundamente e levantou-se.

Pagou o seu café e saiu.

A dona do café notou que eu olhava a senhora. "Ah," disse. "Essa senhora. Ela vem aqui todas as quartas-feiras à mesma hora, sempre sozinha. Senta-se à mesma mesa e pede um café. Fica meia hora, sempre olhando pela janela e depois paga e vai embora. Não fala com ninguém. Parece que espera alguém que nunca chega. Já lá vão cinco anos. É triste."

Concordei, paguei e saí, pensando na senhora dos olhos tristes.

Violet Long, 02-12-2025


Encontro na praia



Na minha idade, e na esperança de fazer uma amizade com alguém interessante, marquei um encontro com um sargento viúvo.

Para impressionar e ir elegante fui ao cabeleireiro, pus bâton e um bom perfume.

Fomos passear à praia.

Quando nos vimos, demos um beijo na bochecha, mas logo me apercebi que ele não tinha dentes. Como eu não gosto de ver alguém desdentado porque associo a pessoas pouco cuidadas e com higiene deficiente, pedi desculpa, disse que tinha o joelho aleijado e fui para casa cozinhar um bom arroz e passei o resto do dia a ler um livro.


                                                    Maria Duarte (Nov. 2025)

“Dizem que todas as corcundas são más”

 



Uma frase quedou na minha mente depois de ler este conto (que é para mim excessivamente sentimental): a de “dizem que todas as corcundas são más”. Na literatura e na história, sim, todos os corcundas são maus, tais como Quasimodo, Rigoletto, ou o rei Ricardo III de Inglaterra, mas na vida real é outra coisa, e eu sei-o pessoalmente porque a minha avó era corcunda e não era nada má.

Não nasceu assim; a causa foi o raquitismo, devido à extrema pobreza da sua família no final do século XIX. Apesar disso, ela chegou a ser enfermeira na ala psiquiátrica do hospital local, casou-se com um viúvo com três filhas e só faleceu aos oitenta anos depois de ter pneumonia. Nunca teve filhos próprios, mas cuidou das suas três enteadas como se fossem dela.
Devo dizer que a minha avó tinha um carácter um pouco difícil. Era exigente e rígida, e nunca foi pessoa de dar abraços e beijos nem de utilizar palavras de afeto, mas sabíamos que nos amava e que tudo o que queria era o nosso bem.

Vivia sozinha numa casa de só dois quartos, a sala com a cama detrás duma cortina e a cozinha com a banheira numa alcova, mais a sanita num quartinho na entrada posterior. Foi uma das 48 construídas num círculo nos anos 30 pelo município para idosos, mas não era nada adaptada. Ela tinha que subir a uma cadeira para chegar à despensa e nunca pôde utilizar a banheira porque era muito alta! As vizinhas queriam-lhe muito porque ia às compras para elas, acompanhava-as quando estavam doentes ou tristes e sempre parava para conversar um pouco quando passava à porta.

Como a minha mãe trabalhava, eu ia a casa da avó para almoçar quando andava na escola primária. Adorava deitar-me? /encostar-me? Na sua cama e vê-la pôr a mesa enquanto falava comigo. Já não sei de que falávamos, mas sei que conversávamos muito. Ela tinha muito orgulho em mim porque eu podia estudar; ela só fez o ensino primário, mas tinha uma bonita letra e gostava de corresponder-se com os parentes e as amigas.

Que eu saiba, ela nunca fez coisas má. Era boa madrasta, boa avó, boa amiga e boa vizinha. Tudo ao contrário do que pintam na literatura.


Violet Long, 14-11-2025

A Aliança

 

O Alípio estava a meio caminho de casa quando se deu conta de que a sua aliança não estava no dedo.


"Meu Deus, o que vai dizer ela!" pensou, entrando em pânico. "Seguro que vai pensar que estive com outra mulher. Sempre vê o lado mau das coisas. E se eu dissesse que ficou na gaveta do escritório depois de retirá-la para ver uma máquina na fábrica... Não, isso não funcionaria porque amanhã também não a teria. Ou digo que fui assaltado e que já fui fazer a denúncia. Não, tampouco.

Não estou ferido e tenho a carteira com o dinheiro e tudo. Ai, coitado de mim!

O que se vai passar? Simplesmente deve ter caído porque perdi tanto peso com a maldita dieta que ela me impôs. Já perdi trinta quilos. Quantos mais quer que eu perca antes de me deixar provar um bocadito de carne ou de açúcar? E esses almoços que tenho de levar para o escritório! Até um coelho passaria fome. E nem pensar nessas injeções de, como é que se chama, Ozempic? Ah não, ela não aceita. Tem que ser tudo natural, vegetariano, vegano, biológico. Desde quando a comida não é biológica? Não é inorgânica? Bom, Alípio, pensa. O que vais dizer? A verdade ou uma mentira? E qual a verdade, se não sei onde nem quando a perdi. Caiu e ponto. Valha-me Deus! O que vou dizer-lhe? Que castigo vai me dar? Será alguma coisa horrível, isso sei."

E cogitando sem chegar a nenhuma conclusão, o Alípio arrastou os pés até casa.

"Boa noite, querido!" ela disse, abrindo a porta com um enorme sorriso.

"Perdeste alguma coisa?”

"Eu, não, porquê?" disse numa voz trémula. Ela riu.

"Ai, vocês os homens, sois tão insensíveis! Não te lembras que a tua aliança caiu à noite quando lavavas os pratos? Encontrei-a hoje de manhã. Nenhuma mulher esqueceria a sua aliança dessa maneira!"

E beijou-o carinhosamente.

 

Violet Long – 18-11-2025