Antes de começar a escrever, fecho os
olhos. Tudo fica escuro. Meu cérebro não vê o escuro, abro-os para perceber...
Éramos várias crianças entre os oito e
doze anos, junto ao mar, AO ENTARDECER, numa época em que ausentar-nos e brincar
na rua não era preocupação para
nossos pais.
Lá longe, na linha do horizonte, um
vermelho forte que se movia, alteava, diminuía, voltava a incandescer... Era um
navio de grande porte. Para nós um Navio em Chamas. Ficámos aflitas, queríamos
ajudar, socorrer, alertar alguém.
Saímos da praia, galgámos dunas de
areias, atravessámos pinhais de longas pernas castanhas e cabeças enormes dum
verde envolvente. Três quilómetros que nos pareceram trinta. Ansiosas, falámos
com nossos adultos que nos acalmaram, pouco sabíamos dos fenómenos da Natureza.
O nosso fogo... Eram os raios do Sol a
refletirem nos vidros e corpos metálicos do navio.
O nosso temor existiu, o Mar continua
lá com outras águas em movimento. O vermelho incandescente continua a aparecer
e não queima.
E na areia... as pegadas das gaivotas
continuam a marcar presença. As nossas, de minúsculo tamanho, deixaram de
marcar o imaginário.
Júlia, 20-03-2026
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