24 de mar. de 2026

Descrevo Uma Paisagem

 


Antes de começar a escrever, fecho os olhos. Tudo fica escuro. Meu cérebro não vê o escuro, abro-os para perceber...

Éramos várias crianças entre os oito e doze anos, junto ao mar, AO ENTARDECER, numa época em que ausentar-nos e brincar na rua não era preocupação para

nossos pais.

Lá longe, na linha do horizonte, um vermelho forte que se movia, alteava, diminuía, voltava a incandescer... Era um navio de grande porte. Para nós um Navio em Chamas. Ficámos aflitas, queríamos ajudar, socorrer, alertar alguém.

Saímos da praia, galgámos dunas de areias, atravessámos pinhais de longas pernas castanhas e cabeças enormes dum verde envolvente. Três quilómetros que nos pareceram trinta. Ansiosas, falámos com nossos adultos que nos acalmaram, pouco sabíamos dos fenómenos da Natureza.

O nosso fogo... Eram os raios do Sol a refletirem nos vidros e corpos metálicos do navio.

O nosso temor existiu, o Mar continua lá com outras águas em movimento. O vermelho incandescente continua a aparecer e não queima.

E na areia... as pegadas das gaivotas continuam a marcar presença. As nossas, de minúsculo tamanho, deixaram de marcar o imaginário.

Júlia, 20-03-2026 


Da beleza perfeita, mas estática à beleza memorial dum ser não bonito.

 

Da beleza perfeita, mas estática à beleza memorial dum ser não bonito.

Meu rosto ainda sem marcas do tempo olhava para o lado enquanto aguardava me servissem

o café. Reparo na outra senhora, feia, e nos vincos de sua pele com quarenta anos,

talvez!... Emanava um forte poder de charme inteligente. Posteriormente perguntei a um

amigo, mulherengo, caracterizando a dita senhora, se os homens a poderiam achar mulher

encantadora, sedutora, apetecível para amar longamente e eternamente. Ao que ele me

respondeu: Sim! Há mulheres feias de beleza extrema.

Ontem lembrei-me desta resposta ao comtemplar uma senhora, já velha, que se encontrava a

ser atendida na recepção dum hospital: - Que linda me pareceu... Sempre que falava o rosto

iluminava-se no sorriso constante nos seus olhos e lábios serenos de constância.

Imaginei-a assim no seu centenário que me reportou à memória de um filme em que a

protagonista principal personificava a sua retirada dos palcos nesta sua última representação

teatral. Em plano de fundo, uma fotografia enorme de um rosto feminino. Todo ele parecia a

terra mãe duma planície ressequida pelo sol ardente!... Conseguia-se vislumbrar o calor

humano que emanava e a envolvia através do seu olhar doce e cativante que nos transmitia

esperança ilimitada de paz e tranquilidade que acalmava nosso desassossego...

Júlia, março 2026

Três Carnavais muito diferentes, mas com algo em comum

 


Hoje, quero compartilhar com vocês um pouquinho sobre os carnavais que

experimentei em três países onde vivi por vários anos, Colômbia, Itália e Espanha.

Na cidade de Pasto, no sul de Colômbia, o Carnaval celebra-se no começo do

ano, como muitos carnavais desse país. Imagine-se a minha surpresa quando

saio do meu quarto para o pátio no dia 28 de dezembro e levo com um balde de água inteiro na cabeça! Os meninos da casa onde me hospedava, que sempre eram muito respeitosos, riram muito. E tive de entrar no jogo, claro! É esse o costume nesse dia, o começo de Carnaval, atirar água sobre os outros e fazer piadas práticas, tal como nós fazemos no 1° de abril.

Logo em janeiro seguem outros dias de Carnaval, todos diferentes, culminando nos dias 5 e 6 com o Dia de Negros e o Dia de Blancos. No Dia dos Pretos, todos pintam a cara de preto e dançam e festejam nas ruas e praças ao som dos instrumentos tradicionais da costa pacifica tocando música afro-colombiana. O Dia dos Brancos é o dia mais importante do Carnaval, com um desfile de carroças, bandas de música, disfarces e grupos coreografados. E não faltam as batalhas de farinha, talco e espuma entre os participantes, que se protegem com óculos de sol, um chapéu excêntrico e um poncho branco. Todos terminam besuntados de branco da cabeça aos pés. É de notar que este Carnaval é uma verdadeira celebração do multiculturalismo que tipifica a Colômbia.

Outro Carnaval que experimente, a alguma distância, por razões que tornarei óbvias mais adiante, foi em Ivrea, no norte de Itália, o Carnaval mais antigo do país. Como os carnavais de Portugal, celebra-se no domingo, segunda-feira e terça-feira antes da Quaresma. A lenda diz que comemora o rapto duma rapariga na noite do seu casamento pelo tirano da cidade, que queria exigir o direito da primeira noite feudal. O plano nefasto dele falhou quando a rapariga o decapitou e o povo invadiu o castelo. Hoje em dia, uma rapariga é eleita cada ano como Violetta, a filha de moleiro da lenda, uma heroína que simboliza a liberdade e que reina sobre os festejos. A parte culminante do Carnaval é a Batalha das Laranjas, em que nove equipas de jovens chamados arancieri (laranjeiros), protegidos com capacetes com grelhas e montados em carros puxados por cavalos igualmente protegidos, atiram milhares de laranjas às outras equipas e, obviamente, aos espectadores. As laranjas simbolizam as pedras que o povo atirou contra o castelo do tirano. Nesse dia não faltam pessoas que sofrem hematomas por causa das laranjas. Como já disse, por isso eu nunca participei.

Uma nota interessante é que ser aranciero é dispendioso. Eles têm de pagar pelas laranjas da sua equipa, as quais são trazidas do Sul porque não se cultivam no clima frio do norte de Itália, e o custo por pessoa chega aos mil euros ou mais.

Mas em Ivrea os jovens orgulham-se de pertencer à sua equipa e geralmente participam durante vários anos seguidos.

O terceiro Carnaval que quero mencionar é o de Cádis, no sul de Espanha,

porque é muito diferente dos outros dois. Em Cádis, o que atiram são palavras e não objetos. O evento mais importante deste Carnaval, que se celebra durante dez dias antes da Quaresma, é o concurso de comparsas. Estas são grupos de homens, disfarçados identicamente segundo o tema, que compõem, tocam e cantam cancões satíricas. Os temas podem ser políticos ou morais, e sempre são mordazes e bisbilhoteiros. O concurso a sério tem lugar cada noite no Teatro Municipal - e é transmitida pela televisão regional- mas os grupos também andam pela rua e sobem para palcos improvisados para cantar as suas canções.

Há outros grupos também, tanto pequenos como grandes, cujas canções são

mais humorísticas. Eles também desfilam pela rua disfarçados e cantam nos

palcos, mas não entram no concurso. Toda a vizinhança e os muitos turistas

se disfarçam, saem à rua, cantam, dançam, bebem e festejam dia e noite.

O que me parece mais interessante destes três carnavais é que, apesar das

diferenças, todos têm em comum uma espécie de batalha, seja de farinha, de

laranjas ou de palavras. Não tenho nenhuma explicação para este fenómeno. Talvez seja o confronto entre a "gordura" da vida normal e a "magreza" da

Quaresma. Ou uma expressão da alegria de ver a primavera chegar. Não acho

que importe: o que importa é que as pessoas têm uma maneira de expressar o

seu júbilo -- e em público.

Violet Long, Fevereiro, 2026