
Mais um cartoon sobre inquéritos. (da mesma fonte)
Obedecem-me agora muito menos,
as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?
Mais uma vez o telefone tocou, e por coincidência, e tendo eu acabado de jantar, prontifiquei-me a atendê-lo. Na verdade não estava à espera de nenhuma chamada, e desde logo suspeitei tratar-se de mais uma abordagem comercial muito em uso no nosso tempo.
Do outro lado da linha uma voz feminina cumprimentou-me, indicando o respectivo nome. Pensei de imediato que mais uma vez teria de por fim à conversa, respondendo de forma civilizada que não estava interessado no produto, que não tinha infraestrutura para instalar o equipamento, oferecido na pechincha, ou que já estava servido com o bem proposto.
Nada disso, amavelmente a interlocutora apenas me queria fazer um inquérito comercial a mando da firma de cujo nome me esqueci de imediato.
Acedi afirmativamente, na esperança de um interrogatório curto e objectivo.
Começou a inquirente por perguntar dos meus hábitos comerciais, espaços onde me abasteço, espaços que conheço ou não, todos eles, no entanto, marcas satélites ou irmanadas de uma maior que reina alto neste país. Aí comecei a desconfiar!
Depois, tomando uma das referidas empresas para início de sondagem, propôs-me atribuir uma classificação de satisfação, utilizando apenas um dos parâmetros seguintes: Muito Bom, Bom, Mau, Muito Mau.
Não entendi o sentido da questão pois o meu grau de satisfação em relação à dita marca é mediano, pelo que pedi que me orientasse na resposta.
Voltou a inquirente à carga, insistindo que à quarta proposta eu teria que responder apenas com um e só um dos valores (parâmetros) propostos.
A mais outra minha contestação quanto aos critérios propostos, respondeu a inquirente que apenas uma das respostas propostas era admitida, de outra forma o inquérito terminava naquele ponto. Respondi-lhe que, assim sendo, o inquérito estava terminado, e desliguei civilizadamente a chamada.
Por momentos fiquei paralisado, mas logo de imediato senti-me cilindrado, e fiquei com a percepção do peso do cilindro que é a Besta EMPRESARIAL GLOBAL.
Pensei no anda montado atrás desta visão maximalista do mundo.
As grandes empresas que, para além de terem os preços mais baixos nos seus produtos, fazem, porém, dos seus consumidores paus mandados, para de testemunho colhido à força, fazerem crer que são em tudo os melhores do Mundo.
Internamente, nestas empresas, quem lá trabalha, vive o drama de ser ou excelente ou mau, sem meio termo, já que é esse o único critério válido de classificação que conhecem, muito embora se embandeirem em arco, proclamando que são MODERNAS, MUITO COMPETITIVAS e aptas à GLOBALIZAÇÂO.
Acreditamos que vivemos em Democracia, porém, a nossa vida comunitária vê-se cada vez mais espartilhada por valores criados à força e ao serviço da Brutalidade Empresarial Global? A qual nos submete continuamente e apenas nos dá a oportunidade de viver no fio da navalha entre o ser besta ou ser bestial. Sendo que a passagem dum estado ao outro é apenas questão de humores de quem tem o poder de decidir da sorte dos outros.
Conclusão: Diz-se que vivemos em Democracia. Pois sim! Porém no dia a dia a prática mostra que disfarçados os constrangimentos, vivemos submetidos a valores próprios dos totalitarismos de Partido Único, em que quem não é por “nós” é contra “nós”.
Carlos, 13/10/2010
Na passada 4ª feira, assisti à minha primeira aula de Língua Portuguesa. A Professora, após a apresentação de todos os alunos e uma breve abordagem sobre a matéria para o presente ano lectivo, sugeriu que a turma fizesse uma redacção!
Ao ouvir esta palavra, de doces recordações, ouço sininhos tocando, e o meu pensamento voa para a escola tão longínqua dos meus tempos de menina, quando o meu Professor Baptista lia em voz alta a minha redacção.
“Isto é para vocês (dizia ele para os outros meninos e meninas) ouvirem e saberem como se faz uma redacção”.
O meu coração pulava, mas a minha timidez mandava que eu ficasse caladinha e me lembrasse que o mérito afinal não era meu … é que naquele tempo as palavras andavam sempre ali, à mão de semear e as ideias eram tantas e tão fáceis de agarrar! Bastava estalar um dedo e elas vinham aos magotes e alinhavam-se, bem quietinhas, nas páginas do meu caderno, sem nunca errarem a linha, nem tão pouco o seu lugar.
Vejo agora como hoje as coisas são bem diferentes: já me fogem quando as chamo, levam o tempo a esconder-se, as fugidias palavras não se deixam agarrar, nem se aquietam no papel. E eu desisto, pois sem elas não consigo encontrar nem o tema nem a forma para uma simples crónica escrever.
Corina, 2010/10/12
A mãe do seu menino
Sempre aquela mãe, na sua roda de amigas, enaltecia as qualidades físicas e morais do seu menino, não esquecendo as intelectuais.
Nasceu com 4 Kgs, era um bebé lindo, deu-lhe umas boas noites. Ainda lhe faltavam alguns meses para os 2 anos, depois de gatinhar, já andava, mandava beijinhos e tinha um lindo sorriso, além de balbuciar algumas palavras.
O seu menino aos quatro anos já conhecia as letras e aos cinco anos juntava-as e construía palavras, um encanto de criança!
Na escola primária (hoje básica) era o melhor aluno da turma, sempre atento e respeitador para com colegas e professores.
Como bom estudante fez todo o percurso do ensino obrigatório e entrou na universidade. Já na universidade, perdeu-se de amores por uma colega, uma esbelta rapariga.
O namoro agora fazia parte da sua vida a par das aulas de direito que frequentava com a sua mais que tudo, eram colegas de curso.
Quando a mãe teve por si conhecimento de que se iam casar, estremeceu. Foi para aquela mãe, embora sabendo do namoro, uma novidade. Aquele menino lindo que tinha sido o maior bem que o seu falecido marido lhe tinha deixado, ia casar, constituir um lar. Que bonito!
Mas, num solavanco, a mãe do menino, ao estremecer, pensou, e em voz alta, interrompida pela emoção, disse: - Será que ela vai tratar o meu querido filho como merece? Como o tratei sempre? E com o dedo à frente do nariz balbuciou: - Está calada!
Marcado o casamento, muita azáfama, pouco tempo para estar com o filho.
No dia do casamento ela, já na igreja, fitava o filho, e lágrimas corriam-lhe pela face enrugada.
Depois da cerimónia e à saída da igreja, os noivos caminhavam ao som da marcha nupcial. A mãe, quase de joelhos correu por entre a multidão e beijou a mão do seu ente querido. “ Que sejas feliz, meu amor!” assim disse ela.
Já em casa, depois da boda, depois de se ter libertado do vestido apertado e dos sapatos que lhe magoavam os pés, a pobre mãe em silêncio repetia o que havia dito à porta da igreja: “Que sejas feliz, meu amor!”
Numa coisa ela não deixava de pensar: Será que aquela jovem que se casou com o seu menino seria capaz de o tratar como ela o fez?
Visitava com frequência a casa dos noivos, levava flores e ia dizendo das preferências do filho, de como gostava de comer e vestir, enfim...
E uma vez que visitou o casal dirigiu-se à nora e, entregando-lhe um ramo de flores que mais lhe agradou para oferecer, a nora, tomando-as, atirou o ramo das mesmas, que caíram em cima duma mesa, dizendo “Flores!...”
A sogra, ao ouvir a nora, respondeu: “São flores! meta-as numa jarra e não se esqueça de as regar para não murcharem!...”
Rogério (13/10/2010)